A PRODRIDÃO NOBRE QUE TANTO LOUVAMOS

Você já ouviu falar em PODRIDÃO NOBRE ? Em francês é chamada La Pourriture Noble, em alemão Edelfäule e em italiano, muffa nobile. E se eu te contar que, com ela, produz-se um vinho branco doce, absolutamente sensacional ?botrytis-cinerea

A podridão nobre decorre da presença de um fungo conhecido como BOTRYTIS CINEREA (ou uva cinzeta, em tradução literal). Em condições específicas (alto índice pluviométrico, elevada umidade e alta concentração de matéria orgânica no solo), o fungo encontra condições ideais de crescimento, aparecendo inicialmente como a podridão cinza, que definitivamente não é boa para a uva.

Esse fungo acaba rompendo a casca da uva e provocando a saída de água com consequente desidratação do bago. Os cachos acabam se desprendendo e não completam seu processo de maturação.

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BOTRYTIS CINEREA (VISÃO MICROSCÓPICA)

Mas se tivermos condições mais específicas ainda (temperatura bem fria com bastante unidade nas primeiras horas da manhã, seguidas de um dia quente e seco), a podridão cinzenta não incomoda a uva e cede lugar à podridão nobre, que pode gerar um vinho simplesmente sensacional !

Na podridão nobre, observa-se ao mesmo tempo uma evaporação de água, muito forte durante um longo período, conduzindo a uma perda importante de volume (25 a 75%) acompanhado de uma forte concentração de açúcar.

Além disso, em todos os vinhos feitos a partir de uvas botritizadas nota-se a presença do ácido glucônico. Este ácido não é encontrado em vinhos feitos a partir de uvas saudáveis. Assim, confirmando a existência de ácido glucônico, é possível confirmar a autenticidade dos vinhos doces obtidos com a cooperação da podridão nobre.

Existem regiões específicas onde essa confluência de fatores pode acontecer : Sauternes e Barzac (França), Tokaj (Hungria), Galícia (Espanha) e também na Alemanha e Áustria. Os dois primeiros são, disparado, os mais famosos e de qualidade muito superior.

YQUEMÉ de Sauternes que vem um ícone do mundo dos vinhos : o aclamado Château d’Yquem (um vinho que pode ser guardado por cem anos) ! Tão reverenciado pelo mundo todo, já foi citado em diversas obras literárias : Dostoiévski, Proust, Júlio Verne e Alexandre Dumas. São três tipos de uvas autorizados : Sémillion, Sauvignon Blanc e Muscadelle (essa última, só utilizada por poucos produtores e, mesmo assim, em pequenas quantidades). A colheita é feita grão a grão e “em ondas”, ou seja, são escolhidas individualmente as uvas que já estão prontas. As demais são deixadas para serem colhidas depois (outra onda de colheita, e pode-se ter até 5 ou 6 ondas por safra). Dá para entender porque esse tipo de vinho tende a ser tão caro.

TOKAJI-IIIOutra personalidade dos vinhos botritizados é o Tokaji. Proveniente da região de Tokaj-Hegyalja, situada a 200 km de Budapest, abrange áreas na Hungria e Eslováquia. Reza a lenda que os camponeses húngaros em 1650, tiveram que adiar a colheita por causa de confronto contra os turcos, e desse modo, o fungo teve tempo para agir. Essa região é marcada por invernos muito frios e verões muito quentes, condições ideais para o Botrytis Cinerea se desenvolver.

O Tokaji (com “i”, que significa proveniente de Tokaj) é feito a partir de um vinho base de uvas normais (Furmint, Harslevelü e Sárga Muskotály) e depois acrescenta-se as uvas aszú (afetadas pela podridão) para macerar no vinho base. É a quantidade de uvas aszú que define a quantidade de açúcar do vinho. Existem mais três tipos de uvas autorizadas : Zeta, Köverszõlõ e Gohér.

062411_0441_Aprimeirave1Os vinhos botritizados são sempre brancos, com características de frutas secas e amêndoas torradas. São doces, elegantes, equilibrados e de final longo. Resumindo … UM ESPETÁCULO PARA OS SENTIDOS !!!

Como eu sempre digo : uma garrafa de vinho envolve muita história, tradições e culturas diferentes, às vezes, milenares. A oportunidade de fazer parte disso, mesmo que por breves momentos, tornar-se-á parte da nossa própria história. E isso, meu amigo(a), não tem preço !


3 comentários sobre “A PRODRIDÃO NOBRE QUE TANTO LOUVAMOS

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