ÍCONES DO VINHO : CAPÍTULO DE HOJE, CHÂTEAUNEUF-DU-PAPE

IMG_0523.JPGChâteauneuf-du-Pape é o nome de uma pequena vila francesa, localizada na região de Provença-Alpes-Costa Azul, no sul do vale do Rhône, a 12 km de Avignon. É também uma Appellation d’Origine Contrôlée, o que equivale à Denominação de Origem Controlada utilizada em Portugal, por exemplo.

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Os produtores desse icônico vinho estão autorizados a utilizar algumas variedades específicas de uvas, para a elaboração dessa preciosidade. São elas :

UVAS TINTAS = Grenache (a principal), Cinsault, Counoise, Mourvèdre, Muscardin, Syrah, Terret Noir e Vaccarèse.

UVAS BRANCAS = Grenache Blanc, Bourboulenc, Clairette, Picardin, Roussane e Picpoul.

A tendência atualmente concentra-se no corte : Cinsault, Grenache, Mourvèdre e Syrah e a garrafa já é um espetáculo à parte. Ela vem com as chaves cruzadas de São Pedro e a tiara papal (em relevo, desde 1937). As chaves cruzadas, o símbolo do papado, são as chaves do céu e foram concedidas por Jesus a São Pedro, que foi considerado o primeiro Papa. E, cá entre nós, a garrafa realmente é muito charmosa.

 

 

Que tal situarmos politicamente a cidade de Avignon e sua participação na história do nome Châteauneuf-du-Pape ? A Igreja católica, naquela época (final do século 13 e início do século 14) era muito forte e muito, muito rica. Isso gerava uma série de atritos com os reis e nobres, por todo o mundo.

No início do século 14, o Papa Bonifácio VIII estabeleceu que todos os governantes deveriam se curvar às vontades da Igreja Católica e proibiu qualquer tipo de taxação sobre os bens da Igreja. Isso, obviamente, irritou o beligerante rei Felipe IV, o belo, que passou a impedir a transferência dos bens da Igreja para Roma.

O Papa então em 1303, excomungou o rei e morreu logo depois. O próximo sumo pontífice foi o Papa Bento XI e ele também morreu pouco tempo depois (8 meses, para ser mais preciso). Assume então, o arcebispo de Bourdeax (Raymond Bertrand de Got), com o título de Clemente V, e esse recusa-se a voltar para Roma, transferindo a sede papal para Avignon no ano de 1309 (onde permaneceu por 67 anos). O nome da propriedade papal : Château Pape Clement !

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PAPA CLEMENTE V

De 1309 a 1377, sete Papas franceses investiram muito dinheiro no palácio que, acabou se tornando, umas das principais construções góticas da Europa.

Uma informação importante é que, quem construiu a fortaleza no alto da cidade, não foi Clemente V, e sim seu sucessor, João XXII. Serviu como proteção para a região e moradia para o Papa. Produzia-se, ao redor do castelo, cerca de 3.000 litros de vinho por ano, para que o Papa recebesse convidados e emissários reais. Os “vinhos do Papa” (Vin du Pape) rapidamente se difundiram e ganharam boa reputação.

Esse período de permanência da Igreja na região, durou até 1376, quando o Papa Gregório XI transferiu novamente a sede do papado para Roma. Mas já era tarde demais, pois o mítico nome do Château du Pape ou Châteauneuf-du-Pape (novo castelo do Papa) estava devidamente engarrafado na história, na mente, no coração e na alma da França e do mundo. Para sempre.

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Os vinhos dessa região foram considerados, por muita gente e durante muito tempo, rústicos e deselegantes. Isso mudou quando o renomado crítico Robert Parker apaixonou-se por esses vinhos e começou a divulgá-los. Isso fez com que a procura aumentasse demais e consequente os preços cobrados. La Crau é hoje o vinhedo mais famoso da região.

IMG_0568Mas inegavelmente são vinhos de muita personalidade (o rendimento das videiras é baixo). Ricos, plenos na boca, elegantes e bastante complexos, costumam apresentar notas de frutas vermelhas, frutas negras, chocolate e flores, presenteando-nos ainda com um tom rubi intenso e uma enorme capacidade de guarda. O teor alcoólico costuma ser alto, podendo chegar até 14,5 %.

Atualmente, os Châteauneuf-du-Pape são vinhos míticos, cheios de classe e que nos levam diretamente para aquela época de reis e Papas, de conquistas e guerras, de construção e destruição cultural. Mas, como eu sempre digo, vinho bom é aquele que você gosta. Esse pode até não agradar seu paladar, mas negar a riqueza da carga histórica que carrega, seria negar todo o sacrifício que a França e a Europa fizeram, para colocar uma jóia engarrafada como essa, ao alcance do nosso paladar e, para deleite do mesmo.

E você ? Concorda que é um baita vinho ou o considera super valorizado ? Enquanto não se decide, o convido a tirar essa dúvida, taça após taça … que tal ?

Saúde sempre ! Que Dionísio os acompanhe e proteja !

 

 


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